Quem é o narrador?
Um surto onírico a partir de um livro.
Acordei de um sonho intranquilo. Não lembro se cheguei a comentar por aqui, mas concluí à duras penas o meu mestrado no ano passado. Foi uma experiência bastante traumática, de incertezas e pequenas crises de ansiedade, uma sensação de completa solidão. E, até o presente momento, sem nenhum interesse em ingressar num doutoramento.
Entretanto, no sonho, eu estava na defesa da minha tese. Era uma tese em literatura, assim como a dissertação - não me recordo qual livro estava sendo analisado. Nos minutos iniciais, antes da banca entrar na chamada, eu estava fazendo a apresentação, decidindo na hora o que falaria e o que não falaria e, como um pensamento posterior, resolvi incluir uma análise do narrador do livro.
Tudo isso porque li O Lugar das Palavras da Vanessa Ferrari. Um livro que mexeu com a minha ideia de narrador e com a minha capacidade em analisá-lo, mas mais que isso, na minha capacidade de escrever.
Que narrador eu utilizo? É uma pergunta que raramente me faço enquanto escrevo e isso é receita certa para acabar caindo em um dos narradores apontados pelo livro. Escrever sem planejar, sem escolher o narrador, é abrir as portas para o subconsciente se projetar e acabar narrando de forma inconsequente.
No livro, a Vanessa fala de quatro narradores: o narrador saudosista, o narrador poético, o narrador conciso e o narrador erudito. É um livrinho pequeno e tão bem pensado, com exemplos que realmente auxiliam a pensar o narrador, e uma prosa fluente. Foi tão certeiro e tão traumático que até povoou meus sonhos.
Sinto que eu caio no clichê do narrador conciso. Quando inicio um texto, é como se perdesse as palavras, não sei por qual caminho seguir para desenvolver minhas ideias, o medo de me repetir talvez me faça subdesenvolver o ponto que eu quero levantar. Mas como o risco de escapar para o narrador erudito e começar a utilizar palavras do século passado só porque tive uma fase obcecada por livros do século XIX.
Em um mundo construído por IAs, pensar na forma de narrar parece um problema menor. Desde que não se deixe a voz dos robôs falarem mais alto, é certo que se desenvolveria uma voz própria, certo? Certo?
Depois da leitura, acredito que não. Para além de escrever os próprios textos, é preciso dedicar um tempo para se pensar em que forma quero contar essa história. Seja ela ficcional, seja ela não ficcional. No livro, a Vanessa explora exemplos de ficção, mas para uma escritora em primeira pessoa - eu mesma - achei que seus pontos valem para este caso também. De que olhar estou contando?
Com um olhar editorial, ela nos pega pela mão e, com a outra, posiciona uma pulguinha atrás da nossa orelha. De que forma quero contar a história que estou escrevendo? Que palavras cabem neste contexto? Como subverter a língua para aproximar o texto da experiência do sublime? Como se faz a boa literatura? Esse é um manual da linguiça literária.
“Autores de classe, formação, gênero e idades diferentes decidiam por soluções narrativas semelhantes, escolhiam as mesmas imagens, palavras e frases, sucumbiam às mesmas armadilhas e ignoravam questões centrais como ritmo, precisão e sentido.”
Adorei a leitura e recomendo para todos que se aventuram na escrita. Quando vê, você também estará sendo assombrado nos sonhos pelo seu narrador de escolha.
Até mais,



Pensar no narrador é uma parte fundamental. Toda vez que eu deixo ir de modo inconsciente, acabo narrando da mesma forma que já narrei outras histórias. A gente tem que tomar cuidado com isso.
Se você não tivesse escrito que fez mestrado em Literatura -- e eu não soubesse disso previamente --, mesmo assim daria para ver no texto que isso faz parte da tua identidade.
Gosto muito dos seus textos < 3