Ler me rouba a realidade
Aquele em que eu comento sobre viver em livros.
Eu, como todo brasileiro de respeito, voltei para a academia dia 5 de janeiro. A volta é humilhante. Sinto dores em todo o corpo nos últimos 15 dias. É a regra, se você já não está ativo e habitual na academia, o ano novo impõe essa meta. De nada adianta estar tomando três remédios psiquiátricos e deixar o corpo definhando.
Minha psicóloga me ensinou um novo verbete emocional: angústia. É esse o sentimento predominante desse início de ano. Tenho tido uns pensamentos sobre como estou aproveitando a vida, estou deixando que o futuro me consuma ou vivendo os dias como eles se apresentam? Ela chama de angústia, disse que eu estava suspirante na nossa última consulta.
Em verdade, eu ando me alienando em literatura. E isso é bom em certa medida. A leitura é um dos meus hiperfocos e se eu estou tendo espaço mental para praticá-la, é um sinal de que está tudo funcionando como devia.
Dito isso, encontrei alguns livros incríveis nesse início de ano. Começando com a Trilogia dos Gêmeos. Para quem acompanha a Aline Aimée, esta recomendação é chover no molhado. Você prepara um chá, senta na cama amparada por travesseiros e começa a ler a história de dois gêmeos que são enviados para morar com a avó em razão de alguma guerra que está acontecendo. Esses meninos começam a fazer treinamentos para se fortalecerem contra a fome, o frio, o cansaço, fazendo anotações em um grande caderno. Eles passam por violências desde a avó e começam a reproduzi-la na sua vida também. E assim o livro vai contando.
No segundo livro, as coisas viram e ao longo da história, você vai repensando todo o primeiro livro. Tentando entender o arco narrativo e para onde a história está indo, como vai chegar ao fim? Será o esperado ou será que a autora vai subverter mais uma vez? E quando chega no terceiro livro, aí é de atirar o livro longe porque você foi enganado por todo esse tempo.
É tão estranho quando você está tão imerso numa história e ela se vira de uma forma tão inesperada. É uma traição! Eu me senti boba, ingênua, como eu não percebi isso antes?
Comecei o ano de leituras já com um nocaute. A trilogia dos gêmeos vale muito a leitura. Da autora, eu também li A Analfabeta, em que ela fala sobre a experiência de imigração e vivenciar o mundo através de uma língua que não é sua. Tem muitos paralelos possíveis de serem traçados entre a obra e a vida da autora.
Um pouco depois, inspirada no filme, li O Filho de Mil Homens de Valter Hugo Mãe. É meu primeiro livro do autor. As obras são muito parecidas com apenas uma pequena parte cortada para o filme, porém o filme usa mais do realismo mágico, enquanto a obra é mais realista mesmo. É um livro bastante sensível, com frases belíssimas, construções que te fazem pensar. E é um livro inteirinho sobre o amor, o amor de pai pra filho, o amor entre dois adultos desejantes, o amor ao próximo. Logo, também trata do desprezo, seu oposto. Gostei bastante da leitura.
Indo para um lado mais fantástico, terminei de ler tudo que foi publicado da série A Descoberta das Bruxas. Uma fantasia que envolve bruxas (claro), vampiros, demônios e fantasmas. Tem série adaptando a obra também. Acreditei que estava lendo o último livro da série, mas ao terminar, vi que não tem fim, virão mais livros pela frente. No geral, foi uma ótima leitura, super divertida, daquelas que imergimos, nos apaixonamos, torcemos. A parte mágica foi a minha preferida, casas que tem personalidade, feitiços impensáveis como chorar até inundar uma casa, conversar com corvos, profecias…
Três leituras completamente diferentes entre si. Um livro de choque, desconforto e tristeza; outro de encantamento, e outro de irrealidade fantástica. Todas ótimas leituras.
Saiu uma newsletter da Babi falando sobre o julgamento de suas leituras quando ela diverge do que “é esperado”. Achei muito pertinente ela levantar essa discussão, porque o importante, a meu ver, é ler. Faz muita diferença se você lê para tornar-se erudito ou para se divertir? Talvez, se você estuda literatura. Mas para o leitor, ele lê pela magia dos livros, esse poder imenso de criar imagens a partir do texto, de se apaixonar por personagens que tornam-se pessoas no nosso imaginário. Para ele, não faz tanta diferença assim. Logo, não faz sentido julgar algumas leituras como menores, como se ler Crime e Castigo e A Culpa é das Estrelas não fizesse sentido e não pudesse caber no corpo de um mesmo leitor.
Se não fossem os livros, minha angústia desse início de ano seria ainda maior. Os livros me trazem para o chão, me conectam com quem eu sou. Que sigamos lendo aquilo que nos dá prazer, seja esse prazer um encantamento erudito ou um encantamento de entretenimento.
Até mais

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Eu amei isso que você falou sobre como o fato de você conseguir ler indica que as coisas estão bem (na medida do possível).
Isso funciona pra mim também. Se chegou num ponto que não estou conseguindo (ou tendo tempo para) ler é porque algo está desajustado.
Vamos montar um clubinho de pessoas que leem como forma de escapar do mundo real.
Concordo com você, ler é o que importa, sem se preocupar com o julgamento dos outros e com certeza ler é a maneira mais gostosa de nos fazer desligar da realidade.