Eu queria ser freira
Dos sonhos infantis aos desejos que informam quem somos.
Eu não sei exatamente sobre o que estava conversando - minhas conversas, com frequência, desviam do tópico principal e passam aos assuntos adjacentes, muitas vezes mais interessantes - mas lembrei que teve um período da minha vida em que eu aspirava ser freira (durou talvez umas duas semanas, até que eu contei pra minha mãe e ela me explicou que eu precisava ser católica).
Nunca fui religiosa, entendi quem foi Jesus quando beirava a vida adulta, até hoje não sei diferenciar as religiões. Porém, tinha uma igreja que eu ia com a vó aos domingos e lá tinham freiras. Isso era nos idos dos anos 90, tenho uma imagem na cabeça de um espaço fechado dentro ou ao lado da igreja em que para ter contato com as freiras, tinha que se bater numa portinha e aguardar. Tipo um balcão de atendimento. E o assunto a ser tratado era a venda de pequenos artesanatos feitos pelas religiosas, no meu entendimento infantil.
Até hoje, eu não sei se criei isso na minha cabeça ou se existiu mesmo. Mas sei que esse estilo de vida me atraía e atrai ainda: viver em silêncio, de forma bastante isolada ou com contato limitado, no que eu imaginava ser uma paz mental, fazendo artesanatos diversos e sem preocupações.
Sei que na mesma conversa em que lembrei disso, já tive meus sonhos ceifados. A Julia, minha amiga, estava me contando sobre a vida de uma tia dela, que é freira e o quanto ela trabalha.
Alguns dias depois, em uma aula da Tati Sabadini sobre cadernos e escrita, ela propôs um exercício que consistia em escrever 5 coisas que gostamos. As coisas que listei no tempo exíguo do exercício foram: comer purê de batata com tofu fritinho, molhar o pé no rio, tomar sol no outono, dirigir ouvindo música alta e deitar em lençois recém trocados.
Depois de escrever cinco coisas que gostamos, era para escrever cinco coisas que não gostamos. A título de curiosidade, as cinco coisas que citei não gostar: lavar brócolis, multidões, dias muito quentes, resolver problemas de adulto e beber café frio. E por fim, de posse dessas respostas, escrever quem somos em três linhas, usando essas respostas: “Rafaela gosta de sentir os elementos no corpo, sente muito prazer pelos sentidos. Porém, também tem problemas com coisas que fogem do seu controle”.
O que me faz sentir viva é tão simples e, ao mesmo tempo, tão difícil de conseguir. Sentir a vida através dos sentidos e não ter os sentidos violentados pela vida ‘moderna’. Mas há consolo e ressonância na literatura. Estou lendo a série “Anne” da Lucy Maud Montgomery e encontrei o trecho abaixo:
"Você não imagina as esplêndidas aventuras que tenho todas as noites, alguns instantes antes de ir para a cama, no meu quartinho do lado leste. Sempre imagino que sou uma pessoa muito brilhante, triunfante e esplêndida... uma grande prima donna, uma enfermeira da Cruz Vermelha ou ainda uma rainha. Na noite passada eu era uma rainha. É verdadeiramente formidável imaginar-se uma rainha. Você se diverte ao máximo, sem nenhum inconveniente, e pode deixar de ser uma rainha quando quiser, o que não acontece na vida real. Mas aqui nos bosques, eu gosto mesmo é de imaginar que sou pessoas completamente diferentes... sou uma dríade morando em um velho pinheiro ou um pequeno duende marrom que se esconde embaixo de uma folha amassada. Aquela bétula que você me viu beijando é uma das minhas irmãs. A única diferença é que ela é uma árvore, e eu uma moça; mas na verdade não há diferença."
Eu gosto demais da Anne porque ela não se limita ao tangível e encontra a felicidade com o mundo imaginário dela. Ela também leva em consideração os “bons modos sociais” e até limita o seu jeito pra caber melhor em Avonlea, mas, na medida do possível, ela vive feliz do jeitinho dela. Ou pelo menos, até o segundo livro é assim.
Tenho pensado muito no que quero daqui pra frente, em como chegar ainda mais perto desse desejo e talvez eu precise/vá/deseje largar tudo, de novo, e recomeçar em outro lugar. É assustador, mas sei que no final as coisas ficam bem. Até para sair de uma posição ruim requer coragem, é preciso se abrir para uma experiência nova sem garantias de que vá ser melhor. Acho que ainda quero ser (o meu tipo de) freira. Ou quero ser Anne.
Até mais,


Eu tb, passei por ponderações similares . Fazia parte do “bullying” me chamarem de freira, mas hj vejo que sempre fui reflexiva por natureza e ansiava encontrar pessoas que encontrassem consolo na dor, no sacrifício pessoal, algo “nada usual”, mas presente no arquétipo da freira.