Como nasce um leitor?
Aquele em que eu falo da minha trajetória de leituras
Não lembro de não ter livros. Sempre estiveram ali. Meu primeiro foi um daqueles livros de bebê, feito de plástico, próprio para morder e que pode ser levado ao banho.
Depois, pequenas histórias infantis. Lembro de que quando era muito pequena, decorei um livrinho inteiro e recitava de cabeça para todas as pessoas que se dispunham a ouvir, eu fingia que sabia ler pois tinha todas as palavras memorizadas.
Tive daqueles livros de pop-up, uma edição lindíssima de contos de fada. Vinha com o livretinho em um envelope no canto da página e os cenários se abriam em 3D com personagens de papel que podiam ser movimentados pela cena. Tinha a história dos três porquinhos, uma das minhas preferidas, além de várias de princesa.
Assinava as revistinhas da Mônica. Mas confesso que meu preferido era o almanaque, que vinha com várias atividades para serem feitas durante as férias. As tirinhas, apesar de as ler, não foi o que me levou ao mundo dos leitores.
Mais tarde, comecei a ler livros de aventura destinados à crianças. A série Deltora Quest. Uma jornada no herói cheia de aventuras com livros curtos que podem ser apreciados até por adultos - afirmo porque os reli quando estava na faculdade. Três amigos se jogam na estrada para recuperar amuletos que os ajudariam a resolver seus problemas. Depois veio a série Poderosa, sobre uma menina que descobre que o que ela escreve, se torna realidade.
Filha de uma mãe leitora, sempre a via embalada em uma leitura. Me intrigava com a quantidade de tempo que ela passava imersa nas histórias, ainda não entendia o prazer que poderia vir dali, mas admirava minha mãe, tão culta, tão concentrada. Assim, pressionava para aprender a ler e aprendi bastante cedo. Quando fui para a primeira série, dizia que ainda bem que tinha feito o pré, lá tinha aprendido a letra H, uma novidade até então.
Eu tentei ler alguns livros de adulto como Ana Karenina e terminei a leitura, apesar do desafio. Lembro até hoje da impressão que as cenas finais causaram na pequena que lia aquelas páginas quase sem entender nada. Também li toda a série do Dan Brown e amava romances de banca.
Mas, como não poderia deixar de ser, meu amor pela leitura nasceu de Harry Potter. Eu tinha dez anos, um ano a menos que o protagonista, e fui tragada pelos livros como Dorothy foi levada pelo furacão. Hoje em dia, quase não falo sobre o assunto, visto que sua autora tornou-se uma pessoa bastante questionável. Porém, eu devorei a série de livros, acompanhava ano a ano as notícias que saíam nas revistas para adolescentes como a Capricho e a Atrevida. E todo Natal, ganhava o livro, um mais gorducho que o anterior, até a sua conclusão.
A partir dali, foi só uma questão de ajuste fino. Degustar vários estilos de livros até encontrar os que conversavam intimamente comigo e tornei-me uma leitora. Deixei de mordiscar os cantos dos livros de plástico e passei a devorar página atrás de página, livro atrás de livro, numa sucessão que não tem fim e (quase) não tem curadoria. Tornei-me uma leitora eclética, de gostos variados, que gosta de ler mais de um livro ao mesmo tempo, que explora gêneros diferentes, nacionalidades diferentes e até idiomas diferentes de leitura.
Não sei como se cria um leitor, mas com certeza o exemplo de minha mãe foi determinante para que eu quisesse ler também. Vê-la tão dedicada a uma atividade simples me deixava curiosa sobre que sensações os livros poderiam causar.
Na minha trajetória de leitora, a única coisa que sempre importou foram como as histórias podem ser contadas através das palavras. Uma mágica a partir de um objeto inanimado, que causa grandes alucinações de mundos inteiros, de corpo presente e mente esperta. Ter sido cercada por livros, me trouxe até hoje.



Que lindo, Rafa.
Que minha filha seja parecida contigo